
giovedì
venerdì
:: Sem Imagens...


Coração sem imagens
Deito fora as imagens,
Sem ti
para que me servem as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente
passageira e verídica.
Preciso habituar-me
ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor
de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas
e que mais ninguém
ouve a não ser eu.
Serei feliz
sem as imagens.
As imagens
não dão felicidade
a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil
inventar-te, e eu te inventei.
Posso passar
sem as imagens
assim como
posso passar sem ti.
E hei-de ser feliz
ainda que isso
não seja ser feliz.
Raul de Carvalho
giovedì
:: E de Novo...

E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta,
os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos,
as risadas
no altar esplendoroso
das ofertas.
De novo beijo a beijo
as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos
e silênciosa ecoar no som
dos precipícios.
E tudo o que me dás
eu te devolvo.
E fazemos de novo,
sempre novo
o amor total dos deuses
e dos bichos.
Rosa Lobato Faria
mercoledì
domenica
venerdì
:: Não...

Não: é só saber
o que de ti afastas,
quando a noite implausível
te chama e te reduz.
É só ousares, de ti,
a pálida renúncia,
a súbita agonia
em que afogas
o esplendor do dia,
o outro lado do querer,
estar, sentir ou adiar.
Não: nem olhar no vento,
perdido ou encerrado,
nem o esboço de um dedo
que se encaminha para ti.
Nem dor de amar,
nem vergonha de pedir
o que sem sequer pedir
este é dado, ou, antes,
o que de ti for procurado
na curva que antecede
o teu primeiro não.
António Mega Ferreira
giovedì
sabato
:: Bendita Sejas Mulher...

Bendita Sejas mulher
Rogério Martins Simões
Nos caminhos que trilhamos renascidos
Certamente já esquecemos a distância
Que prolongam os caminhos percorridos
Irás encontrar na minha ânsia
Estes trilhos marginais mas tão sofridos
Não me fico por silêncios
Mas, meu amor, eu te digo
Bendita sejas mulher
A eternidade é estar contigo
Bendita o sejas por ser
A razão do meu viver
Os ventos são adversos
Maior porta de abrigo, eu, não vi
Terá o céu no acaso
Tamanha luz no firmamento
Sem ti?
Repara no sentido dos meus versos
São cartas de amor que não escrevi…
Palavras adultas fora do prazo,
Construídas no encantamento,
Sem pressas, aqui!
Por isso, de novo, te digo
Bendita sejas mulher
A eternidade é estar contigo
Bendita o sejas por ser
A razão do meu viver.
:: Em...

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny

Sou feita de uma carne perecível
futuro de outra carne,
sem nenhuma eternidade.
A rocha é uma invencível
parte da terra;
que ela me resuma
no seu mesmo destino mineral.
A solidez ausente que tortura
nossa matéria frágil, no final
se renderá: serei de pedra dura.
Nunca mais chorarei
nessa passagem de poesia.
Com nítida certeza,
recorto nas montanhas
minha imagem mais que raiz,
expressa na beleza.
Pela terra em que
não me desfiguro,
hei de surgir um dia
em cristal puro.
Lupe Cotrim
venerdì
martedì
:: Esta Vida...
ESTA VIDA NÃO VIVISerá que na vida não vive
Quem na vida já viveu?
Ou será que terá vida
Quem nesta vida sofreu.
E eu que morri e que vivo
Dentro do mundo que passou:
Nos versos que não morrerão
Após rasgar a vida
Irão lembrar quem chorou
E esta vida não viveu.
Rogério Martins Simões
Fotografia em CANDAS
domenica
:: Ausência...

Fotografia de Paul Mahder
Por muito tempo achei
que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento
exclamações alegres,
porque a ausência,
essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
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